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Leitura na tela x leitura em papel: para refletir

O crescimento do fomato eletrônico como principal suporte para a publicação de revistas, teses, trabalhos de evento e agora, mais e mais, para livros, facilitou consideravelmente o acesso à informação. A partir de um micro conectado à Internet ou mesmo de um celular, você pode ler diversos tipos de conteúdo bibliográfico, sem precisar deslocar mais do que um ou dois dedos no seu teclado. No entanto, será que a passagem pura e simples do conteúdo em papel para o formato eletrônico facilita o acesso no que diz respeito à aquisição de informação? Ler na tela, seja na tela do computador, do smart phone ou de um leitor como o Kindle, é a mesma coisa que ler o que está num papel?

Os defensores do livro tradicional e das publicações em papel costumam apresentar como argumento para a sua causa o fato de que o papel é mais fácil de manusear do que o formato eletrônico sob diversos pontos de vista: é mais fácil fazer anotações, a cor e a luminosidade normalmente ajudam a leitura (enquanto o papel é apenas um refletor da luz ambiente, a tela é emissora de luz, o que exige mais trabalho dos olhos) e até mesmo o toque e o cheiro transformam o contato com esses materiais numa experiência única. Por outro lado, defensores dos formatos digitais dizem que esses obstáculos já foram em parte superados pelas tecnologias mais recentes, e é uma questão de tempo até que um e-book seja tão agradável de ler quanto um livro em papel. Pelo contraste dessas opiniões, percebe-se que a discussão está longe de acabar.

De fato, embora os novos aparelhos para leitura de livros eletrônicos resolvam e até ampliem a possibilidade de fazer anotações e edições de conteúdo, e tenham incorporado também ferramentas de personalização para transformar o processo de leitura em tela numa coisa mais fácil, o aspecto físico, que demanda um contato direto com o leitor, ainda é uma incógnita.

Grande parte dessa dúvida provém do fato de os formatos eletrônicos serem intangíveis, separados do seu suporte físico. De acordo com a pesquisadora  Anne Mangen, da University Stanvanger, Noruega, o aspecto físico importa tanto quanto a identificação de palavras, pois o processo de leitura implica também atividades manuais (o que a pele e os músculos registram). Na passagem de um formato para outro, parte dessas informações pode ficar perdida.

As diferenças não se restringem ao aspecto físico, porém. O tempo de imersão em um texto complexo, como um romance ou um ensaio de filosofia, por exemplo, também é diferente, já que o tempo em que uma pessoa consegue manter um nível razoável de atenção quando está vendo um documento eletrônico costuma ser menor do que num texto em papel. Assim, nossa leitura desses documentos tenderia a ser mais “superficial”.

Por outro lado, parece já não ser possível evitar uma virtualização daquilo que antes costumávamos sentir ao toque das mãos. Pensando num ambiente de biblioteca, a digitalização facilita muito a administração do espaço físico, já que o acervo de materiais em formato tradicional tenderia a crescer em níveis menores à medida que houvesse planos para compra de itens em suporte eletrônico e planos de digitalização do conteúdo publicado em papel. Além disso, o crescimento de publicações online e o investimento pesado em aparelhos para ler conteúdo eletrônico apontam para um público aberto a uma nova experiência de leitura, mais dinâmica e interativa.

Se para os que cresceram visitando bibliotecas tradicionais e se deliciando com livros em papel ler algo na tela pode ser um sacrilégio, para as gerações que já nascem inseridas no ambiente digital, entre jogos virtuais e audiobooks, esse processo já está mais incorporado a uma rotina de leitura caracterizada pelo dinamismo, diversidade e dispersão de conteúdos.

Considerando esses fatos, é possível dizer que não se trata  apenas da velha disputa entre conteúdo em papel e conteúdo eletrônico. O que realmente devemos nos perguntar parece estar mais voltado à forma como lemos e assimilamos informação: precisamos realmente de um registro físico como o texto em papel para compreendermos melhor um conteúdo? Se daqui a alguns anos tudo se transformar num imenso mundo digital, teremos também um processo de leitura mais disperso e superficial? E, o mais importante, onde a biblioteca se encaixa neste espaço em transição?

Questões que, pelo menos por hora, continuarão sem resposta definitiva.

Veja também:

http://chronicle.com/blogPost/Screen-ReadingPrint/8551/?sid=at&utm_source=at&utm_medium=en

http://roomfordebate.blogs.nytimes.com/2009/10/14/does-the-brain-like-e-books/

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2 comentários em “Leitura na tela x leitura em papel: para refletir

  1. O livro é um objeto cultural formidável. O combate livro tradicional x livro digital ainda está em um embrionário começo.

    Acho que vocês podem se interessar por este artigo aqui, que de certa forma desmistifica a leitura na frente do computador, apontando que o mal-estar gerado pela leitura online é antes de tudo uma questão de costume http://ow.ly/wZZq

    • Boa dica, Leandro. Vamos fazer um novo texto com base no artigo. Para bibliotecas, o número de documentos em formato eletrônico vem aumentando muito nos últimos tempos, portanto é necessário que os usuários também se adaptem a esse contexto.

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