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USP e as bibliotecas digitais

Alguns ainda torcem o nariz para a ideia de ler na tela, argumentando sobre a falta de adaptabilidade dos suportes digitais à prática da leitura. No entanto , não é mais possível negar: as bibliotecas digitais assumem um papel cada vez mais proeminente no universo da informação. Com elas, vieram também um sem número de artigos, documentos e livros eletrônicos, que aos poucos começam a ocupar espaço nas bibliotecas universitárias tradicionais. Assim, ao invés da compra de algumas centenas de livros e estantes, investe-se cada vez mais em bases de dados e repositórios digitais, capazes de armazenar uma quantidade muito maior de informação.

Este texto, publicado no jornal O Estado de São Paulo no dia 31 de janeiro de 2010, dá uma boa dimensão sobre essa nova realidade no contexto de uma universidade brasileira de grande porte, como é o caso da USP. Aqui, a digitalização é vista como forma de democratizar o acesso a conteúdos que, de outra forma, ficariam presos entre quatro paredes e sujeitos às regras de consulta de cada biblioteca. Mas, será que a digitalização por si só realmente significa democratização, num país ainda tão carente de boas políticas para inclusão digital? Independentemente da resposta, convém ficarmos atentos: as bibliotecas digitais estão aí, e vieram para ficar.

A USP na ponta dos dedos

Com a digitalização dos livros e documentos de suas bibliotecas, a universidade oferece ao público seu acervo, de graça

Celso Lafer e João Grandino Rodas – O Estado de S.Paulo

Na era da sociedade da informação cada vez mais se ganha a consciência, a partir da formulação de Wiener, de que informação e liberdade estão diretamente relacionadas. Ser livre é ser informado, inclusive para fazer uso público da própria razão, no espaço democrático da palavra e da ação. Essa dimensão libertadora da informação deve também ser considerada no trato do tema das bibliotecas digitais, posto que desempenham um papel decisivo como suporte para o abrangente alcance da informação.

Seja com foco em livre acesso, ou em comercialização, grandes bibliotecas lançaram-se em políticas de digitalização. É o caso da Europeana, biblioteca digital que reúne acervos oriundos de 27 Estados membros da União Europeia; ou da Biblioteca Nacional da França e sua versão digital, Gallica. Em Portugal, a Biblioteca Nacional reformulou sua infraestrutura tecnológica para enfrentar o que Jorge Couto, seu diretor, chama de uma “acesa competição que atualmente se trava entre espaços linguísticos e sua afirmação no ciberespaço”.

No setor privado, o projeto Google Books encetou a publicação on-line de parte substancial de livros já impressos, não sem provocar fortes reações contrárias, notadamente por parte de editoras e bibliotecas. Essas reações evidenciam que estão em jogo questões de grande relevância econômica em matéria de concorrência e direitos autorais. Sem descurar da polêmica e dos interesses e valores que encerra, não se pode perder de vista no debate do assunto a dimensão mais profunda do acesso ao conhecimento como vetor de garantia de liberdade e democratização.

A digitalização diz respeito diretamente à universidade. É um meio de torná-la cada vez mais um agente produtor e propulsor da transmissão de informação. Nesse sentido, cabe lembrar que, no primeiro semestre de 2009, a USP subiu 49 posições no Webometrics Ranking of World Universities, passando da 87ª para a 38ª posição. Esse indicador analisa os conteúdos disponibilizados pelas instituições universitárias na internet, como forma de avaliar as atividades científicas, seu desempenho e impacto. Isso comprova a importância da USP no panorama científico nacional e internacional, e o sucesso do esforço de abertura para a sociedade, com uma política de acesso livre e universal aos resultados da pesquisa desenvolvida.

A Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP, por exemplo, disponibiliza mais de 18 mil documentos; e muitas revistas da USP têm migrado para o ambiente digital e estão disponíveis no portal SciELO – biblioteca eletrônica com 197 periódicos científicos brasileiros, criada em 1997 por meio de uma parceria entre a Fapesp e a Biblioteca Virtual em Saúde (Bireme).

Ainda para exemplificar com ações da USP, em junho de 2009 foi lançada a Brasiliana Digital, parte integrante do projeto Brasiliana USP que está construindo na Cidade Universitária um edifício moderno e tecnologicamente adequado para receber – tornando-a pública e acessível, pela internet – a biblioteca doada por José Mindlin e sua família. A Brasiliana Digital é resultado de um projeto de pesquisa apoiado pela Fapesp que reúne professores, estudantes e profissionais de diversas unidades da USP, como a FFLCH, a Escola Politécnica, o IEB e a Faculdade de Direito. Com apoio do Ministério da Cultura, o projeto prepara uma solução tecnológica que possa ser utilizada por outros acervos e, no dia 25, a Brasiliana Digital inaugurou uma nova versão do seu site para os usuários. Ainda, juntamente com o MinC, a USP realizará em abril um simpósio internacional de Políticas Públicas para Acervos Digitais.

A Faculdade de Direito, com apoio da Microsoft, junta-se agora ao projeto Brasiliana USP, possibilitando o acesso da população à primeira biblioteca pública da cidade, a do Convento de São Francisco – incorporada à faculdade em 1827 -, contendo, além de obras atuais, livros do século 16 e 17.

Essas iniciativas permitem uma política transversal de publicização e conservação dos acervos da USP. São um suporte efetivo à tríplice missão universitária de ensino, pesquisa e extensão de serviços à sociedade. Com o devido respeito à autonomia das unidades e às políticas de guarda, é dever da universidade – buscando apoio de instituições como a Fapesp – promover soluções que permitam oferecer uma abertura, ampla e democrática, de seus acervos, mediante a digitalização dos livros e dos documentos de todas as suas bibliotecas, passíveis de o serem, para que, sem nenhum custo, fiquem acessíveis a todos pela internet. Trata-se da democratização como afirmativo vetor de ação da universidade de alcance interno e em benefício de toda a sociedade.

Professores titulares da Faculdade de Direito da USP.

Celso Lafer é presidente da Fapesp e João Grandino Rodas é o novo reitor da USP

Link para acesso à noticia: http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,a-usp-na-ponta-dos-dedos,504268,0.htm

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